quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Cliente – uma experiência de consumo única (quase a última)

Todo mundo sabe que o cliente sempre tem razão até quando não tem. Que o cliente tem que ser paparicado, amado, idolatrado, salve, salve. Mas há de se ter um limite, nem que ele leve ao esgotamento físico, psicoemocional ou beire o além-vida. Recentemente fui ‘brindada’ com uma dessas experiências e quase que, por amor ao cliente, passei dessa pra melhor. Na verdade o fato é que eu não sei efetivamente se eu cheguei mesmo perto de dobrar o cabo da boa esperança, mas que deu pra dar um susto peraltinha, deu. A história foi tragicômica, mas tudo por devoção ao cliente.


Eu não sou de beber café. Aliás, nunca. Nem pra agradar a tia-avó. No máximo um capuccino gelado (que é 90% chantily, 9% açúcar e 1% café) no Starbucks. Pois bem, tendo esse histórico descafeinado, há de se supor que eu seja altamente sensível à cafeína. Lá vou eu, visitar meu cliente em sua fazenda de café, no sul de Minas Gerais. Cliente chique, gente boníssima. Fazenda fina, pertencente à família dos magnatas da comunicação no Brasil (chuta, que é gol).


Enfim, fomos eu, meu chefe e o motorista, às 5h00 da matina, pegar estrada – só quatro horinhas. Fiquei meio nervosa, não sabia que roupa vestir, sendo que não tenho nenhuma camiseta pólo do Ralph Lauren pra fazer o estilo ‘esporte fino’ e passar uma boa impressão pro cliente tipo ‘sou chique mesmo despojada, durmo em lençol de cetim e acordo maquiada e de cabelo feito’. Chegamos à fazenda, maravilhados com aquele cafezal que vai até onde a vista alcança (nessa hora, já estávamos com o espírito do interior de Minas, usando até o léxico local – acho que voltei puxando o erre e falando tudo no diminutivo).


Conhece o cliente, bota no pé, óculos de sol e toca ‘corrê a lavôra’. Bora. Mas antes, vamos tomar um cafezinho? CLARO! ADORO CAFÉ. O meu com adoçante, por favor. Eu é que não ia fazer desfeita pro cliente. Não me avisaram que ‘tomar um cafezinho’ é um eufemismo para ‘vamos tomar alguns cafezinhos e conversar um pouco’. E dá-lhe café. Espresso, puríssimo, premiado, encorpado.


Na hora do almoço eu comecei a sentir a palma da mão formigar. Depois do 18° espresso eu parei de contar, mesmo porque não lembro nitidamente o que houve. Só sei que fui aceitando xícara após xícara, degustação após degustação. Então se finda a visita. Voltamos para o carro para retornar à Sampa. Acho que talvez pelo fato de eu estar andando o tempo todo, só fui sentir o efeito do café quando parei, dentro do carro. Parei mesmo, de falar e de respirar inclusive.


Segundo o motorista, eu estava esverdeada quando ele perguntou: “Daniela, você não está muito bem, né? Quer que eu pare o carro?” Fiz um movimento rotatório com a cabeça, um sim meio não. Depois de minutos sem falar uma palavra, confidenciei aos presentes: “Acho que vou morrer”. Taquicardia, pressão descompassada, náusea, um horror. A coisa ficou preta. Paramos em uma farmácia em Poços de Caldas e fui informada que pra melhorar meu estado, só transfusão de sangue ou muita água. MUITA água. Tomei três Dramins e demorei uns dois dias pra voltar da ‘catalepsia narcótica’.


Meu chefe falou que eu não precisava ter tomado TODOS os cafés que me foram oferecidos. Nem pra agradar o cliente.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Nós e eles – a tentativa de inserção da classe média no mercado de luxo

Não vou dizer que não há boa vontade dos fornecedores do mercado de luxo em incluir os reles mortais - também conhecidos como classe média - em seu filão de negócios. Há sim. Armani, classudo e caríssimo, cedeu aos encantos do proletariado e desenvolveu a Empório Armani, onde sim, você consegue comprar com o que sobra do seu ordenado (ou parcela em suaves vezes), uma pecinha de roupa da marca para chamar de sua.

O dinheiro para ir à galeria Lafayette em Paris ficou curto? Porque não se deleitar com os selecionadíssimos produtos da Opaque, os mesmos exatos encontrados lá? Não deu pra economizar e comprar ‘aquela bolsa Chanel que eu vi na Vogue de dezembro’, me contento com o porta-níquel original da marca.

Tudo é acessível. Tudo cabe no cheque especial. Não cabe? Acha caro? Bom, muito provavelmente, é porque não é pra você. Eu sei. Dói. Ouvir “não é para seu bico” dói demais, talvez mais do que descobrir que aquela saia linda que você comprou há uma semana, sua irmã garimpou pela metade do preço no bazar da loja. Mas infelizmente o mercado é assim. Lojas, butiques, perfumarias e bancos são adeptos do “sim, isso não lhe pertence”.

O Banco Safra me mostrou isso claramente, preto no branco, sem dó: incauta, fui pagar três contas, sendo que uma delas era da bandeira do Safra. Enfrento a fila, bem luxuosa por sinal, com madames e senhores correntistas, que por sê-lo, passam na minha frente. Prédio na Avenida Paulista, todo em mármore, com detector de metais digno do Charles De Gaulle. Após aguardar humildemente minha vez, pago a conta do Safra e peço:
- Moço, tem mais essas duas!
Ele, mui educadamente, replica: - São do Safra?
Eu, muito naturalmente, triplico: - Não.
Ele, com aquela cara de escárnio, do tipo “ Não acredito que vou ter que explicar”, me comunica: - Você não é correntista né? Então, se não é do banco Safra, cobramos dez Reais por conta.
Assim, como se fosse a coisa mais natural do mundo e como se fosse uma honra eu pagar para pagar conta.

Enfim, elitismo. Ele existe e é pra mostrar onde cada um fica. Eu, por minha vez, fico na fila do Banco do Brasil, porque eu que não vou pagar dez Reais por conta.

Daniela Beatriz Carvalho de Abreu

Eu quero? Eu posso? Eu preciso?

Minha amiga Amanda diz que essas são as três perguntinhas mágicas que nos devemos fazer antes de adquirir um bem ou serviço do qual temos alguma dúvida. Isso se aplica principalmente depois de você jurar que não ia comprar um par de sapatos, nem sequer de havaianas, nos próximos três meses. Aí você vê aquele par de verniz vermelho - lindo, brilhando, convidativo – na vitrine da loja do shopping, no final da hora do seu almoço, no meio do mês, depois de torrar o crédito em lingerie. Putz, mas é o último. E no seu número.

Essa é a hora de parar e responder a essas três, porém cruciais, perguntas antes de sacar o cartão de débito e falar “Vou levar. Embrulha?”

Eu quero?
Bom, é óbvio. Senão, não estaria me incomodando com essas perguntas, pra começo de conversa. Então, pra essa, é sim.

Eu posso?
Quase sempre, a resposta será negativa nessa pergunta. A não ser que seja no começo de mês ou a sua madrinha depositou o seu ‘presente de aniversário’ atrasado.

Eu preciso?
Essa pergunta é capciosa. Cruel, na verdade. Surgem mil e um motivos pra você precisar daquele bendito sapato, que vão desde um simples ‘combinar com aquela blusa que eu não uso nunca’, até com o ‘mas com salto 2,3cm, com o bico redondo, eu não tenho’. Resumindo, não, você não precisa. Mas você quer taaaanto...

Mas atenção, se o seu ‘precisar’ for pra combinar com a blusa encalhada, cuidado. Você pode acabar com duas coisas encalhadas, que você comprou não sabe muito bem o porquê, que não vai usar nunca. Ou seja, aquela nossa amiga antiga, a compra por impulso. Comprar por impulso leva muita gente à bancarrota, ou até ao analista. Fiquei sabendo que uma jornalista, maravilhada com a arquitetura moderna, comprou um apartamento por impulso. E depois voltou à construtora, humildemente, pedindo para devolver o investimento porque não poderia pagá-lo. Assim, como quem devolve um vestido que na loja ficou bom, mas em casa... pero no mucho.

A salvação é, segundo a própria amiga que levantou a tese, se você responder a duas dessas perguntinhas inconvenientes, recebe-se carta branca para adquiri-la. Basta ver se a análise de crédito vai concordar. Ou o seu marido.

Daniela Beatriz Carvalho de Abreu