Todo mundo sabe que o cliente sempre tem razão até quando não tem. Que o cliente tem que ser paparicado, amado, idolatrado, salve, salve. Mas há de se ter um limite, nem que ele leve ao esgotamento físico, psicoemocional ou beire o além-vida. Recentemente fui ‘brindada’ com uma dessas experiências e quase que, por amor ao cliente, passei dessa pra melhor. Na verdade o fato é que eu não sei efetivamente se eu cheguei mesmo perto de dobrar o cabo da boa esperança, mas que deu pra dar um susto
peraltinha, deu. A história foi tragicômica, mas tudo por devoção ao cliente.
peraltinha, deu. A história foi tragicômica, mas tudo por devoção ao cliente. Eu não sou de beber café. Aliás, nunca. Nem pra agradar a tia-avó. No máximo um capuccino gelado (que é 90% chantily, 9% açúcar e 1% café) no Starbucks. Pois bem, tendo esse histórico descafeinado, há de se supor que eu seja altamente sensível à cafeína. Lá vou eu, visitar meu cliente em sua fazenda de café, no sul de Minas Gerais. Cliente chique, gente boníssima. Fazenda fina, pertencente à família dos magnatas da comunicação no Brasil (chuta, que é gol).
Enfim, fomos eu, meu chefe e o motorista, às 5h00 da matina, pegar estrada – só quatro horinhas. Fiquei meio nervosa, não sabia que roupa vestir, sendo que não tenho nenhuma camiseta pólo do Ralph Lauren pra fazer o estilo ‘esporte fino’ e passar uma boa impressão pro cliente tipo ‘sou chique mesmo despojada, durmo em lençol de cetim e acordo maquiada e de cabelo feito’. Chegamos à fazenda, maravilhados com aquele cafezal que vai até onde a vista alcança (nessa hora, já estávamos com o espírito do interior de Minas, usando até o léxico local – acho que voltei puxando o erre e falando tudo no diminutivo).
Conhece o cliente, bota no pé, óculos de sol e toca ‘corrê a lavôra’. Bora. Mas antes, vamos tomar um cafezinho? CLARO! ADORO CAFÉ. O meu com adoçante, por favor. Eu é que não ia fazer desfeita pro cliente. Não me avisaram que ‘tomar um cafezinho’ é um eufemismo para ‘vamos tomar alguns cafezinhos e conversar um pouco’. E dá-lhe café. Espresso, puríssimo, premiado, encorpado.
Na hora do almoço eu comecei a sentir a palma da mão formigar. Depois do 18° espresso eu parei de contar, mesmo porque não lembro nitidamente o que houve. Só sei que fui aceitando xícara após xícara, degustação após degustação. Então se finda a visita. Voltamos para o carro para retornar à Sampa. Acho que talvez pelo fato de eu estar andando o tempo todo, só fui sentir o efeito do café quando parei, dentro do carro. Parei mesmo, de falar e de respirar inclusive.
Segundo o motorista, eu estava esverdeada quando ele perguntou: “Daniela, você não está muito bem, né? Quer que eu pare o carro?” Fiz um movimento rotatório com a cabeça, um sim meio não. Depois de minutos sem falar uma palavra, confidenciei aos presentes: “Acho que vou morrer”. Taquicardia, pressão descompassada, náusea, um horror. A coisa ficou preta. Paramos em uma farmácia em Poços de Caldas e fui informada que pra melhorar meu estado, só transfusão de sangue ou muita água. MUITA água. Tomei três Dramins e demorei uns dois dias pra voltar da ‘catalepsia narcótica’.
Meu chefe falou que eu não precisava ter tomado TODOS os cafés que me foram oferecidos. Nem pra agradar o cliente.